quinta-feira, 8 de novembro de 2012

ENTRE ASPAS: MADRUGADA.



A luz do quarto estava apagada, mas a claridade da rua já começava a entrar timidamente pela janela entreaberta do quarto. Era madrugada de um dia de semana qualquer. Nós tínhamos que levantar cedo, ele para o trabalho e eu para o colégio, mas ainda estávamos deitados na cama e bem acordados. Depois do restaurante, deitamos exaustos e começamos a nos beijar e conversar sobre a vida. A viver e a conversar sobre os beijos. Não lembro bem o que eu dizia, quando ele interrompeu.
-  Sabe, é estranho… Você cria teorias o tempo todo. Para tudo. Às vezes, acho que o que sente por mim é apenas consequência de mais uma delas. Fica tanto tempo pensando, escrevendo, justificando, fazendo sei lá o que, que talvez, tenha esquecido como é sentir de verdade. – disse, deixando momentaneamente de tocar e acariciar meus cabelos.
- Por que você está dizendo isso? Eu disse alguma coisa durante o jantar? – O assunto de antes não tinha absolutamente nada a ver com aquelas palavras. Eu estava falando sobre a separação dos meus pais em 95 e do nada, ele aparece falando sobre os meus sentimentos. Olhei fixamente para os seus olhos e esperei mais um desabafo.
- Não. Muito pelo contrário. Para mim, as coisas entre nós estão absolutamente bem. Mas, não percebo isso em você. Já faz um tempo para falar a verdade. Não é de hoje que você vive alimentando uma tristeza sem motivos aparentes. Passa o dia com um olhar distante, como se ainda estivesse em busca de felicidade. Ou seria lembrando de algum momento feliz? Não sei. – Naquele momento tive medo de nós estarmos tão conectados ao ponto dele começar a conseguir ler meus pensamentos.
- Quem você disse que cria teorias mesmo? – Eu queria resolver aquela situação. Mas o que fiz mesmo foi virar e começar a olhar para o teto. Puxei a colcha e cobri o meu corpo completamente.
- Não faça isso. Essa coisa de tentar mudar o foco da conversa e fugir do assunto como se nada tivesse acontecido. Não quero discutir ou estragar o nosso momento, digo apenas para te lembrar que eu não sou um daqueles caras que aparecem para o tempo passar mais rápido. Eu odeio ficar imaginando que você me enxerga assim. – Naquele momento eu percebi que uma lágrima estava prestes a se formar nos olhos dele. O tom da voz também tinha mudado.
- Mas você não é. Já disse isso várias vezes. - Nós dois estávamos olhando para o teto.
- Eu posso conquistar suas melhores amigas, tentar ser mais engraçado do que aquele cara bizarro da faculdade que você conheceu dia desses, cozinhar para sua mãe ou até te surpreender com flores na sala de aula. Mas juro, eu infelizmente não consigo competir com o seu passado e essas lembranças loucas que você alimenta como se fossem de estimação. Também não quero ocupar um espaço no futuro que não é meu. Você tem que me querer lá, entende? – Disse, enquanto virou e começou a me olhar novamente. Fingi que não importava, mas depois de alguns alguns segundos ouvindo aquelas palavras, me virei.
- Mas eu quero. Você é o meu presente. – Eu não estava mentindo. Nunca fui tão feliz na minha vida como naquela época. As coisas não eram tão simples por dentro como aparentavam por fora, mas no fundo, eu sabia que aquilo era besteira minha.
- Seja sincera, você me ama com a cabeça ou com o coração? – Aquela pergunta saiu como uma bala. Nem precisei de perícia. O disparo perfurou meu coração e fez com que o sangue começasse a escorrer instantaneamente em forma de lágrimas, nos meus olhos. O problema já não era a resposta da pergunta, era o fato de deixar alguém tão especial em dúvida.
- Na verdade, meu amor, eu te amo com o meu corpo todo. Cada átomo aqui agora é propriedade sua. E mesmo tendo lá minhas loucuras, é com você que eu quero abrir e fechar os meus olhos todas as noites. É para você que eu quero contar minhas conquistas e minhas angustias. Dividir meus pesadelos e os meus sonhos. Dessa vez, eu juro, não vou precisar de perder para perceber isso.
Ele então colocou novamente os braços em volta dos meus ombros, deu um beijo demorado na minha testa e disse baixinho no meu ouvido que me amava de um jeito que nunca aconteceu antes. Naquele momento eu senti seu perfume e foi como a primeira vez. Aquilo me deu uma vontade enorme de parar o tempo e fazer aquela madrugada durar mais algumas horas. Infelizmente, nós só tínhamos mais alguns minutos.
AUTORA : BRUNA VIEIRA - BLOGhttp://www.depoisdosquinze.com/
MINHA ESCRITORA PREFERIDA PRA CONTOS COMO ESSE, ACESSEM O BLOG, CURTEM TEXTO OBRIGADA ;D
(Ana Karolyna)

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