sábado, 7 de maio de 2011

Um Simples Pretérito Perfeito


Pra ser lido em meio ao silêncio, por favor.



Ela piscou os olhos duas ou três vezes. Queria ter certeza que estava acordada, mas não sabia ao certo ainda. Mirava à frente uma imagem mais ou menos conhecida, e mesmo assim curiosa. Uma grande imagem monocromática de um parque e da figura refletiam em algum lugar em meio à imensidão.


Havia olheiras, muitas delas; havia cansaço em todas as feições, em cada gesto, cada jeito. Os olhos não brilhavam mais, até mesmo os fios ruivos perderam a vida. As árvores balançavam com a brisa suave e fria, carregando as vestes do ser que não se movia. Tinha os olhos opacos, parecia preocupado.


A observadora estendeu a mão até onde pode. Quis afagar-lhe, consolar-lhe e mesmo se não pudesse, quis ajudá-lo. Só não esperava que quando finalmente pudesse lhe tocar, estaria tocando um espelho frio.


Acordou de um susto, tomou três goles do ar.
Olhou um mar de lençóis ao redor e sentiu-se afogar.


Preciso de um tempo até entender que não precisava ter medo, apesar de saber que era só autoproteção. Sabe, a única coisa da qual se deve ter medo é de si mesmo. O espelho deveria ser um alerta, um sinal de perigo.


Sacou o celular e observou as horas sem realmente se importar. O sono ainda embebedava seu sangue. Discou a efeito de costume o número conhecido, colocou o celular no viva-voz. Fechou os olhos.


Três ligações depois, escutou uma voz gutural, mas plenamente acordada, que murmurou algo como alô:
- Eu preciso ir.
- Sabe que horas são?
- Não. Sei que preciso ir.
- Nós não tínhamos combinado que seria melhor não prolongar isso e...
- Não me interessa. Eu só preciso ir, por favor, não me diga outro não.


Aquele silêncio desconfortável que é cortado só pela respiração de alguém penetrou em forma de sombra. Gritava. Esmagava. Ele apenas respirava, ela esperava paciente seu outro não.


- Você não tem aula ainda hoje?
- Que horas sai o avião?
- Não quero que você perca aula por mim.
- Não quero perder você e estou perdendo. A vida é uma merda e você não pode ter tudo que quer. - ela disse, engolindo uma lágrima. - Que horas?
- Às cinco...
- Eu estarei lá.
- Eu não quero.
- Quando você terminou comigo, eu deixei de me importar com o que você quer ou não. Agora eu estou cuidando de mim. E eu preciso ir.


Desligou e lembrou que não sabia nadar.


Levantou. Engoliu o choro. Caminhou até o banheiro. Sentiu medo do espelho. Chorou. Vestiu um short meio rasgado e uma camiseta. Amarrou os cadarços. Escovou os dentes. Esqueceu de pentear o cabelo. Desceu. Tomou um taxi. Chorou denovo. Chegou.


Eram quarto da manhã e os coturnos apressados machucavam o chão. A cada passo, uma quase corrida. A cada olhada, uma procura. Quando encontrou, engoliu o choro. Ninguém precisava saber que você chorou. Quando o encontrou, nenhuma palavra.


Cruzou seus dedos aos dele enquanto ele tocou a tatuagem do seu pulso com o dedão. As veias dela latejaram, os olhos dele encheram d'água. A alma dos dois se misturou novamente.


Sem dizer nenhuma palavra, ele a puxou para um dos bancos. Sentou-se e ela sentou-se em seu colo. Aninhou-se no que sempre considerará um lar. O peito dele coberto por uma camisa era quente. O coração dela gelava cada vez mais. Os braços dele a envolveram protetores. Ela fechou os olhos e desejou morrer ou qualquer coisa menos dolorosa do que pensar.


Respirava devagar. Sentiu o peito dele subir e descer. Ignorou todos os barulhos lá fora. Seu ouvido captando apenas o coração dele. Tum-tumtum-tum. Bloqueava os pensamentos. Os pensamentos irrigavam sua mente. Sua alma dançava e se misturava cada vez mais a dele. O sol começava a nascer. O avião pousou.


Alguém sabe como se pára o Tempo?
Alguém sabe como se livrar da Distância?
Alguém sabe como se esquece um Amor?


Não.
Ninguém sabe.



Ouvir dizer que o pior é que a gente sobrevive e concordei.
O pior é que a gente sobrevive.

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